SOBRE PAIS, FILHOS E LIMITES
Podemos observar que muito se tem falado e
discutido sobre a importância de se estabelecerem limites para os filhos.
Contudo, infelizmente, estas considerações em geral acontecem quando os filhos
demonstram atitudes condenáveis do ponto de vista dos pais e do ponto de vista
social. "Isso é falta de limite!" é o que muitos dizem, diante de uma
maior extrapolação por uma criança ou um adolescente.
Por outro lado, perante a colocação de uma
possível necessidade ou questionamento em relação a limites, muitos pais
afirmam que estão educando seu filho ou filha "para o mundo" ou que
ele ou ela não são propriedade deles e devem fazer o que acham que é certo.
Esta visão de mundo é, sem dúvida, bastante interessante e louvável. Contudo,
ela pode ser distorcida e, por isso, precisa ser melhor examinada.
Parece-nos bastante evidente que existem
atitudes das crianças e adolescentes que precisam e devem ser orientadas e
corrigidas. Entretanto, a importância do limite vai muito além do que ter como
objetivo apenas um "bom comportamento" do filho.
Entendemos que estabelecer limites para os
filhos é algo bastante distinto daquilo que possa ser entendido como repressão.
Pois, apesar dos constantes protestos e ouvidos moucos, as crianças e os
adolescentes precisam muito de nossas referências... Por diversas vezes,
achamos que eles já são maduros o suficiente. Assim, não percebemos o quão perdidos
se sentem quando não tem estas referências que, em muitas ocasiões, fazem-se
presentes através dos limites estabelecidos pelos pais.
Portanto, não é raro observarmos o sentimento de
abandono em filhos cujos pais não se preocupam em exigir atitudes e cumprimento
de regras e normas familiares e/ou escolares. A sensação de alívio e segurança
pode ser também observada nos filhos quando os pais estabelecem limites. Em
algumas ocasiões, tanto as crianças quanto os adolescentes sentem uma certa tranquilidade
em saber que alguém "não permite" que façam tudo que querem de uma
forma instintiva e descontrolada.
Um outro aspecto interessante é quando
constatamos que, em geral, os pais procuram passar aos seus filhos algo
diferente daquilo que experienciaram enquanto filhos que também foram. Fazem
isso na expectativa de que possam dar mais e melhor para seus filhos, seja no aspecto
econômico, afetivo e educacional. É comum ouvirmos: "com meu filho vai ser
diferente!" ou "não quero que minha filha passe pelo que
passei..." Ora, podemos observar com certa facilidade que a maioria dos
pais de hoje teve nas suas relações familiares, quando crianças e adolescentes,
uma educação mais rígida, fechada e até mesmo repressora. Parece-nos que seja
bastante razoável que queiram ser diferentes neste aspecto também com seus
filhos. Sem dúvida, é de suma importância que possamos nos avaliar para não
repetirmos velhas histórias que não deram certo.
Contudo, não
podemos nos furtar a continuar sendo os pais, a referência para nossos filhos.
É fundamental que não nos escondamos numa postura exclusivamente permissiva,
"moderna" ou pseudo-libertadora.
É bem verdade que colocar limites é muito
cansativo e chato, muito mais para os pais do que para os filhos. Exige dos
pais muita maturidade para discernir e questionar o que são seus preconceitos e
inseguranças pessoais e o que necessita realmente ser considerado inadequado
para os filhos. Por outro lado, ser repressor ou permitir tudo dá muito menos
trabalho, pois não gera conflitos, questionamentos, nem libertação e, muito
menos ainda, crescimento, seja por parte dos pais, seja por parte dos filhos.
Sem dúvida alguma, lidar com limites requer que
estejamos mais perto afetivamente de nossos filhos, numa atitude dialogal em
que se reconheça o outro como diferente, como indivíduo. Requer que sejamos
menos egoístas e que não acreditemos que eles não precisem mais da gente.
Paulo Bonfatti
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