sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

SOBRE PAIS, FILHOS E LIMITES

SOBRE PAIS, FILHOS E LIMITES

 Podemos observar que muito se tem falado e discutido sobre a importância de se estabelecerem limites para os filhos. Contudo, infelizmente, estas considerações em geral acontecem quando os filhos demonstram atitudes condenáveis do ponto de vista dos pais e do ponto de vista social. "Isso é falta de limite!" é o que muitos dizem, diante de uma maior extrapolação por uma criança ou um adolescente.
 Por outro lado, perante a colocação de uma possível necessidade ou questionamento em relação a limites, muitos pais afirmam que estão educando seu filho ou filha "para o mundo" ou que ele ou ela não são propriedade deles e devem fazer o que acham que é certo. Esta visão de mundo é, sem dúvida, bastante interessante e louvável. Contudo, ela pode ser distorcida e, por isso, precisa ser melhor examinada.
 Parece-nos bastante evidente que existem atitudes das crianças e adolescentes que precisam e devem ser orientadas e corrigidas. Entretanto, a importância do limite vai muito além do que ter como objetivo apenas um "bom comportamento" do filho.
 Entendemos que estabelecer limites para os filhos é algo bastante distinto daquilo que possa ser entendido como repressão. Pois, apesar dos constantes protestos e ouvidos moucos, as crianças e os adolescentes precisam muito de nossas referências... Por diversas vezes, achamos que eles já são maduros o suficiente. Assim, não percebemos o quão perdidos se sentem quando não tem estas referências que, em muitas ocasiões, fazem-se presentes através dos limites estabelecidos pelos pais.
 Portanto, não é raro observarmos o sentimento de abandono em filhos cujos pais não se preocupam em exigir atitudes e cumprimento de regras e normas familiares e/ou escolares. A sensação de alívio e segurança pode ser também observada nos filhos quando os pais estabelecem limites. Em algumas ocasiões, tanto as crianças quanto os adolescentes sentem uma certa tranquilidade em saber que alguém "não permite" que façam tudo que querem de uma forma instintiva e descontrolada.
 Um outro aspecto interessante é quando constatamos que, em geral, os pais procuram passar aos seus filhos algo diferente daquilo que experienciaram enquanto filhos que também foram. Fazem isso na expectativa de que possam dar mais e melhor para seus filhos, seja no aspecto econômico, afetivo e educacional. É comum ouvirmos: "com meu filho vai ser diferente!" ou "não quero que minha filha passe pelo que passei..." Ora, podemos observar com certa facilidade que a maioria dos pais de hoje teve nas suas relações familiares, quando crianças e adolescentes, uma educação mais rígida, fechada e até mesmo repressora. Parece-nos que seja bastante razoável que queiram ser diferentes neste aspecto também com seus filhos. Sem dúvida, é de suma importância que possamos nos avaliar para não repetirmos velhas histórias que não deram certo.
Contudo, não podemos nos furtar a continuar sendo os pais, a referência para nossos filhos. É fundamental que não nos escondamos numa postura exclusivamente permissiva, "moderna" ou pseudo-libertadora.
 É bem verdade que colocar limites é muito cansativo e chato, muito mais para os pais do que para os filhos. Exige dos pais muita maturidade para discernir e questionar o que são seus preconceitos e inseguranças pessoais e o que necessita realmente ser considerado inadequado para os filhos. Por outro lado, ser repressor ou permitir tudo dá muito menos trabalho, pois não gera conflitos, questionamentos, nem libertação e, muito menos ainda, crescimento, seja por parte dos pais, seja por parte dos filhos.
 Sem dúvida alguma, lidar com limites requer que estejamos mais perto afetivamente de nossos filhos, numa atitude dialogal em que se reconheça o outro como diferente, como indivíduo. Requer que sejamos menos egoístas e que não acreditemos que eles não precisem mais da gente.

 Paulo Bonfatti

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